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  • Foto do escritorGuilherme Beraldo

Angústia é sintoma de COVID?


Coronavírus. Pandemia. Doença. Sofrimento. Morte. Os desafios do contexto atual já são conhecidos de todos nós. Há mais de quatro meses lidando, no Brasil, com a presença do novo vírus, seus efeitos devastadores na saúde das pessoas infelizmente já não são mais novidade. Febre, tosse, dores musculares, cansaço, desconfortos abdominais. Sintomas nomeados e classificados, caracterizando a COVID-19.

Mas os impactos na vida de milhões de pessoas vão muito além das perturbações físicas que o patógeno fez aparecer. As consequências econômicas também são patentes. Comércios, fábricas e escolas fechadas, além da perda de milhões de empregos mundo afora. Em países mais pobres, fome e miséria. Tudo isso nos faz sentir Medo. Do ponto de vista existencial o Medo é essencialmente ligado a um “objeto”, ao qual ele se relaciona. Tenho medo de ficar doente. Tenho medo de ter sequelas. Tenho medo de perder meu emprego. Tenho medo de morrer. Sempre um medo “de”.


No entanto, o que tem bagunçado a cabeça de muita gente é a convivência com a Angústia.


Segundo o pensamento de Heidegger, a Angústia é uma condição intrínseca da vida humana. Diferimos dos animais porque imprimimos significados às nossas vivências, tornando-as experiências. Significar o vivido, dar sentido a tudo o que nos cerca, fazer escolhas são aspectos dos quais não podemos escapar. Para Sartre, a “não-escolha” não é uma possibilidade, pois ao não escolher decide-se permanecer onde se está. É um paradigma sem saída. A Angústia, portanto, decorre da inescapável tarefa de dar conta de quem nós mesmos somos. Sendo um processo, nunca se esgota ou se completa. Difere do Medo porque, ao contrário deste, não se “liga” a nada. Yalom comenta que por meio de processos psicológicos complexos, em sua maioria inconscientes, procuramos transformar a Angústia em Medo, no afã de objetifica-la, dar a ela um nome. Infelizmente isso não é sempre possível, pois o "nada", o porvir, a necessidade inescapável da criação de uma realidade vindoura é a causadora do desconforto de estar angustiado. Não se engane: ela sempre existirá.


Pensemos na metáfora do topo de duas montanhas próximas. De um lado estamos nós, e do outro aquilo que nos aflige. Quando do outro lado temos algo “concreto”, à ponte que nos liga a ele chamamos Medo. Quando temos uma ponte que não nos leva a nada, mas que mesmo assim existe, podemos chama-la de Angústia. O que está do outro lado? O nada. Percebe-se, então, que um cenário adverso como o que temos enfrentado agora não gera Angústia. Ela está aí desde sempre e vai permanecer enquanto existirmos. É impossível deixá-la de lado, pois angustiar-se é parte de ser humano. Situações limite ou momentos nos quais a incerteza é maior apenas nos colocam mais próximos da angustiante realidade de existir. Um contexto no qual é difícil enxergar saídas apenas escancara a Angústia. Os medos ficam mais patentes e a sensação de desamparo cresce. Sendo impossível escapar da tarefa de dar conta de quem nós mesmos somos, que possamos aproveitar a urgência do momento para aprendermos a conviver com a realidade de que jamais poderemos dar conta de algo - ou de alguém - por completo. O devir, o desenrolar da vida estará sempre adiante e à espreita. Conviver com o imponderável é tarefa essencial. Por isso, um bom exercício ao qual esse momento nos convida é: identificar até onde vai o nosso controle sobre o mundo e tudo aquilo que dele faz parte. Não se acanhe, pegue um lápis e papel e desenhe - o nosso cérebro entende as coisas melhor assim! Faça círculos representando você e os outros. Inclua desejos, sonhos, comportamentos, expectativas e veja o que pertence a cada um.


Ao final do exercício, será mais fácil entender o que não podemos controlar, simplesmente porque não podemos "mexer” em todas as variáveis da vida e do comportamento das pessoas. Perceber onde começa a responsabilidade do outro significa parar de gastar energia para resolver questões que não nos pertencem.


O outro lado da moeda é: compreender o que é “do outro” nos coloca na posição de sermos responsáveis por dar conta daquilo que restou, ou seja, de quem nós mesmos somos. Ninguém pode fazer isso além de você mesmo. Arregace as mangas e comece a construir, de forma consciente, a realidade que deseja. Comece já!

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